Luzia Rennó Moreira
Luzia Rennó Moreira
Luzia Rennó Moreira, nascida em 1907 em Santa Rita do Sapucaí (MG), foi filha de uma das famílias mais influentes de Minas Gerais. Recebeu uma formação cultural refinada e, apesar de ter sido criada para ser dona de casa, como era esperado de mulheres de sua classe, escolheu um caminho diferente. Casou-se com um primo, diplomata, em um casamento arranjado, como era comum à época. Não teve filhos. A união, embora não bem-sucedida, possibilitou que ela conhecesse o mundo. Morou no México e nos Estados Unidos, e viajou por países como Japão e China, onde entrou em contato com os avanços científicos e tecnológicos que a fascinaram.
Ao retornar à sua cidade natal em 1941, encontrou uma realidade marcada pela estagnação econômica e pela falta de oportunidades para os jovens. Inspirada por uma conversa com o amigo Walter Telles, sobre o futuro promissor da eletrônica, decidiu investir na educação do país e fundou a Escola Técnica de Eletrônica “Francisco Moreira da Costa”, a primeira do tipo na América Latina. Dona Sinhá, como era conhecida, usou sua influência e visão de futuro para transformar sua cidade por meio da educação tecnológica, deixando um legado duradouro para o Brasil.
Inovações que mudaram a tecnologia
Em suas viagens, especialmente ao Japão, Sinhá conheceu de perto o avanço da eletrônica. Inspirada por esse contato, fundou em 1959 a Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa (ETE-FMC), a primeira da América Latina e sétima do mundo, marcando o nascimento do que viria a ser o Vale da Eletrônica em Santa Rita do Sapucaí (MG).
Para tornar o projeto realidade, ela doou terras de sua herança e articulou apoio com o governo federal, conseguindo recursos diretamente com o ministro da Educação na época, Clóvis Salgado, durante o governo de Juscelino Kubitschek. Também firmou parceria com os jesuítas e manteve contato com professores do ITA, consolidando as bases pedagógicas da escola.
Legado de Dona Sinhá
Mais do que fundar uma instituição, ela promoveu acesso inclusivo à educação técnica, distribuindo bolsas que cobriam alimentação e materiais, permitindo que jovens de baixa renda também pudessem estudar. Sinhá Moreira também contribuiu para o desenvolvimento urbano da cidade, loteando antigas fazendas para criar novos bairros e moradias, impulsionando o crescimento de Santa Rita do Sapucaí.
Embora tenha falecido em 1963, sem ver os frutos completos de seu trabalho, seu legado permanece. A ETE, que começou com 13 alunos, hoje tem cerca de 700 estudantes, sendo quase 40% mulheres. Sua iniciativa inspirou a criação do INATEL, um dos maiores centros de formação em engenharia do país, e contribuiu para transformar a economia local, antes baseada no café, em um polo de tecnologia com duas faculdades,o Instituto Nacional de Telecomunicações, que recentemente participou do lançamento de uma rede de testes 5G, e o FAI – Centro de Ensino Superior em Gestão, Tecnologia e Educação.
Reconhecimentos
A pequena cidade sul-mineira, é conhecida hoje como Vale da Eletrônica, mas só se transformou em polo tecnológico após Luzia Rennó romper barreiras comuns a seu tempo para fundar a primeira escola técnica de eletrônica da América Latina. Hoje, o Vale da Eletrônica conta com 45 cursos relacionados à eletrônica, mais de 150 empresas, 31 startups e 3 incubadoras e se consolidou como o terceiro maior polo de desenvolvimento no setor da eletrônica, segundo dados do Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica (Sindvel).
Em 1965, dois anos depois da morte da Sinhá, foi inaugurado – em um terreno que pertenceu a ela – o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel). Ela é referência da participação feminina no desenvolvimento tecnológico não apenas de uma cidade, mas de uma nação. Histórias de vida de santarritenses são moldadas pelo aprendizado conquistado nesta instituição.



